A mais recente pesquisa Quaest, divulgada na quarta-feira (13), aponta que um terço do eleitorado brasileiro (32%) se declara independente — nem lulista, nem bolsonarista, nem alinhado a esquerda ou direita. Apesar desse contingente, o levantamento indica que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) estão descolados dos demais pré-candidatos para 2026, reforçando o padrão de polarização observado em eleições anteriores e a dificuldade para a chamada terceira via ganhar tração.
Cenário da pesquisa Quaest
- Primeiro turno: Lula lidera com 39% e Flávio Bolsonaro tem 33%. Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) aparecem com 4% cada; Renan Santos (Missão) soma 2%.
- Segundo turno: em simulação, Lula registra 42% e Flávio Bolsonaro, 41%.
Segundo a Quaest, o contingente de eleitores que se define como independente vem se mantendo estável há meses, mas isso não tem se traduzido em força eleitoral para nomes fora dos dois polos principais. Para o cientista político Felipe Nunes, embora entre 20% e 30% do eleitorado demande de forma consistente um candidato fora da polarização, a falta de coordenação das lideranças políticas “confunde o eleitor”. Em pesquisas qualitativas, Nunes afirma observar maior descrença no sistema político e uma busca por perfis “outsiders”, mais do que por uma alternativa de centro moderado.
Terceira via e a disputa por espaço
Em 2026, nomes como Caiado e Zema tentam ampliar projeção nacional, mas acabam disputando o mesmo campo anti-Lula — e não se consolidam como opção efetivamente independente e competitiva. As nuances entre os dois ficaram evidentes nas reações ao caso em que Flávio Bolsonaro teria pedido recursos ao empresário Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Zema classificou a conduta como “imperdoável” e “um tapa na cara”, enquanto Caiado cobrou explicações do senador, mas enfatizou a necessidade de manter a direita unida contra Lula.
Para Murilo Mendes, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), Caiado investe numa candidatura “antissistema moderada”, amparada em currículo administrativo e com potencial de diálogo com antipetistas e independentes. Zema, por sua vez, adota uma postura de outsider com enfrentamento mais radical ao establishment. A ex-ministra Marina Silva, terceira colocada em 2010 e 2014, avalia que nomes como esses “não apresentam mudança substantiva em relação ao bolsonarismo” e “reproduzem”, em essência, um padrão reacionário no plano econômico, social e ambiental. Reaproximada de Lula em 2022, Marina deixou o governo para disputar o Senado por São Paulo e rejeita o rótulo de terceira via no passado, dizendo que o termo simplifica o debate: suas candidaturas buscavam “uma nova forma de pensar o desenvolvimento do país”, projeto que, segundo ela, foi interrompido pelo recrudescimento da polarização em 2018.
Histórico de tentativas e limites
Levantamento do g1 com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que, desde a redemocratização, candidaturas que se apresentaram como alternativa ao embate principal não romperam a divisão do eleitorado entre dois polos. Em 1989, ano da primeira eleição direta para presidente após a ditadura, a disputa de fato se afunilou entre Fernando Collor (PRN) e Lula (PT), com o alagoano vencendo o segundo turno por 53% a 46%. Nas eleições seguintes, consolidou-se o padrão de dois protagonistas e um terceiro tentando surpreender — destaques para Marina Silva (2014), com 21,3% dos votos, e Anthony Garotinho (2002), com 17,8%.
A vitória de Jair Bolsonaro (então no PSL) em 2018 encerrou duas décadas de disputas entre PT e PSDB e redefiniu a oposição a Lula, agora capitaneada pelo bolsonarismo. Para o cientista político Fernando Schuler (Insper), o desempenho limitado da terceira via reflete uma marca da política brasileira: a concorrência acirrada e recorrente entre dois campos ideológicos bem demarcados, com visões opostas de governo e valores, o que “dificulta o surgimento de alternativas”.
Contexto pós-2018 e incentivos partidários
O historiador Herbert (ou Herbet) dos Anjos avalia que, no pós-2018, a ascensão do bolsonarismo e o agrupamento de forças antagônicas no campo lulista estreitaram as opções eleitorais, reforçando o “voto útil”. Segundo ele, o avanço da extrema direita, com questionamentos às urnas eletrônicas, tensionamentos entre Poderes e discursos de viés golpista, estimulou uma unidade em torno de Lula.
O empresário João Amoêdo, fundador do Novo e candidato em 2018, sustenta que o espaço para candidaturas de centro encolheu: ele afirma que não há interesse dos partidos em se colocarem como diferentes de lulismo ou bolsonarismo, dada a lógica de ampliar bancadas e, com isso, o acesso a recursos públicos (Fundos Partidário e Eleitoral e emendas). Amoêdo deixou o Novo após declarar apoio a Lula no segundo turno de 2022 e não voltou a disputar cargos.
Outsiders e o humor do eleitor
Para Felipe Nunes, a apatia e a desconfiança com a política tradicional abrem espaço a perfis fora do sistema. Ele cita como exemplo recente o crescimento de Pablo Marçal nas eleições municipais de 2024, em São Paulo, como um indício desse apelo. Murilo Mendes pondera que terceira via não significa, necessariamente, centro ideológico, mas “uma alternativa factível aos campos hegemônicos da disputa”.
Perspectivas
Com Lula e Flávio Bolsonaro à frente e a memória recente de pleitos polarizados, especialistas ouvidos pelo g1 avaliam como baixa a probabilidade de vitória de um nome da terceira via em 2026. A pesquisa Quaest reforça que, embora exista uma parcela expressiva de eleitores independentes, a falta de coordenação e o ambiente político seguem favorecendo a disputa entre os dois polos. O quadro pode evoluir com o avanço das articulações e das campanhas, mas, por ora, os dados e o histórico recente indicam obstáculos relevantes para a decolagem de uma alternativa fora da polarização.