Os Estados Unidos incluíram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) em duas listas de terrorismo — a de Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs) e a de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs). Embora os efeitos ainda não estejam totalmente claros, especialistas ouvidos pelo g1 avaliam que a medida pode atingir a economia brasileira, ao ampliar riscos jurídicos e financeiros para empresas, investidores e instituições com exposição indireta às facções.
O que muda com as listas dos EUA
- A inclusão nas listas SDGT e FTO abre margem para ações mais duras do governo americano contra estruturas financeiras associadas às facções. Segundo Thiago Rodrigues, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a primeira lista (SDGT), já em vigor, foca em operações financeiras dentro dos EUA. Já a classificação como FTO tem alcance mais amplo ao “projetar a capacidade de os Estados Unidos processarem pessoas de países terceiros que tenham relações com grupos que são listados como terroristas”, tanto na esfera cível quanto criminal.
- Em termos práticos, afirma Rodrigues, “a atividade financeira de um grupo no Brasil pode ser processada nos EUA”. O pesquisador destaca o potencial efeito sistêmico: “Qualquer pessoa, cidadã de outro país, pode ser processada no sistema jurídico-penal dos EUA: um político, uma personalidade pública, um empresário, um banqueiro — mesmo que não esteja fazendo negócio nos EUA, mas no seu próprio país.”
Risco de sanções e efeitos em cadeia
- Para o promotor Lincoln Gakiya, que atua há 21 anos no combate ao PCC e integra a Operação Carbono Oculto, a medida pode resultar em “sanções econômicas de natureza gravíssima”. Entre elas, cita o congelamento de ativos e a proibição de transacionar com instituições americanas — ponto sensível para bancos integrados ao sistema financeiro dos EUA.
- Gakiya ilustra o risco de contágio por cadeias de relacionamento financeiro: recursos de transações de postos de combustíveis ligados ao PCC teriam circulado por empresas do setor (como a Copape) e alcançado o mercado financeiro, chegando a um fundo da gestora Reag — ambas investigadas pela PF. “A Reag aplica uma parte de seus recursos, por exemplo, no Banco Master, que por seu turno faz transações de títulos com vários bancos grandes do país e que têm também operações financeiras com bancos americanos”, disse em entrevista à jornalista Natuza Nery, no podcast O Assunto. “Se a gente for levar ao pé da letra a interpretação que se dá a essa classificação de terrorismo, você poderia sancionar esses bancos brasileiros — que não tiveram diretamente nenhum contato com nenhum integrante do PCC”, afirmou.
Como o dinheiro do crime entra na economia
- A Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal em 2025 e com desdobramentos em 2026, investiga a infiltração do PCC no mercado financeiro e na economia formal. Segundo as apurações, fintechs teriam misturado dinheiro lícito e ilícito em “contas-bolsões” mantidas em grandes instituições financeiras, dificultando o rastreamento da origem dos recursos.
- As investigações apontam também para o uso do setor de combustíveis na lavagem de dinheiro, com transações que terminariam no mercado financeiro. “Como se sabe pelas operações policiais já feitas, a penetração de dinheiro ilegal é muito grande na economia legal”, afirma Rodrigues. Ele exemplifica o risco para agentes econômicos que, mesmo sem saber, se conectam a elos contaminados: “Imagina um operador de agronegócio que faça negócios com uma transportadora de soja que seja usada para lavar dinheiro do PCC. Esse agroempresário pode ser julgado nos EUA.”
Reação do mercado e medidas de supervisão
- Um representante de um grande banco brasileiro ouvido pela reportagem minimizou os impactos da medida, ao afirmar que as instituições financeiras do país já operam com programas robustos de compliance e de prevenção à lavagem de dinheiro. “As fintechs que não seguem tais medidas é que devem ser impactadas”, disse sob reserva.
- Em paralelo, o Banco Central vem reforçando regras para aprimorar a identificação da origem e o rastreio de recursos, incluindo iniciativas para encerrar o uso de “contas-bolsão” por parte do crime organizado, conforme noticiado pelo g1. O objetivo é reduzir pontos de opacidade que favorecem a mistura de recursos e a blindagem de fluxos ilícitos.
Contexto internacional e histórico
- Segundo Thiago Rodrigues, grupos semelhantes ao CV e ao PCC já vinham sendo adicionados às listas de terroristas dos EUA desde o ano passado. Logo no início do atual mandato, em 2025, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva determinando ao Departamento de Estado a inclusão do crime organizado nessas listas, citando o cartel de Sinaloa (México), o Trem de Arágua (Venezuela) e a Mara Salvatrucha (El Salvador).
- Rodrigues lembra ainda que, desde 2021, o PCC já constava em uma terceira lista do governo americano, do Departamento do Tesouro, como organização criminosa internacional — classificação voltada a confisco de bens e prisões de envolvidos em negócios com o grupo dentro dos EUA. Os efeitos, porém, teriam sido limitados nos últimos anos por conta da presença “irrisória” do PCC em território americano, segundo o pesquisador. Para ele, a nova lista de grupos terroristas é “muito mais política do que técnica”, ao inserir essas facções na narrativa da “guerra contra o terrorismo”.
Possíveis impactos para a economia brasileira
- A classificação pode afetar desde o sistema bancário até cadeias reais da economia — turismo (especialmente no Rio de Janeiro), agronegócio, tecnologia e mercado de capitais —, avalia Rodrigues. “O Brasil é um sistema econômico complexo e muito integrado.”
- Eventuais efeitos dependerão do escopo das ações de autoridades americanas, da resposta de instituições financeiras globais em seus programas de de-risking e do avanço das investigações no Brasil sobre a infiltração do crime organizado no sistema financeiro.
Encerramento
Os desdobramentos da decisão dos EUA sobre PCC e CV serão medidos pela intensidade de aplicação das sanções, pela aderência do mercado a políticas de prevenção e pelos resultados de operações como a Carbono Oculto. Com o sistema financeiro brasileiro integrado a redes internacionais, o foco recai sobre governança, rastreabilidade de fluxos e resposta regulatória — fatores que podem mitigar, ou amplificar, o impacto econômico da nova classificação.