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Apoiada por governo e oposição em momentos distintos, a pressão por Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) para investigar o Banco Master se transformou em disputa de narrativas no Congresso. Mesmo com sete iniciativas protocoladas ou em fase de coleta de assinaturas — entre CPIs na Câmara e no Senado e duas CPMIs —, a cúpula do Legislativo resiste à instalação imediata. Enquanto governistas e bolsonaristas utilizam o tema com foco nas eleições deste ano, cabe aos presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), decidir sobre a leitura e a tramitação dos requerimentos.
Como se cria uma CPI
- Uma CPI exige apoio mínimo de um terço dos membros da Casa correspondente e a indicação de um fato determinado a investigar, com prazo de funcionamento.
- A instalação depende da leitura do requerimento em sessão.
- Quóruns: Câmara (171 deputados), Senado (27 senadores). A CPMI demanda, simultaneamente, 171 deputados e 27 senadores.
Disputa política e tramitação
Apesar do aumento da pressão, a cúpula do Congresso é contrária à instalação de um colegiado para apurar o escândalo envolvendo o Banco Master e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Após um período em que o tema parecia arrefecendo, as revelações sobre as ligações entre o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Vorcaro recolocaram o assunto no centro do debate parlamentar.
Na Câmara, o deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) protocolou requerimento com mais de 200 assinaturas para a criação de uma CPI do Master. O presidente da Casa, Hugo Motta, afirmou que dará “tratamento regimental” ao pedido — isto é, o requerimento entrou na fila de análise e precisa aguardar decisão sobre 15 solicitações anteriores de CPIs para ser instalado ou arquivado.
Senado e Congresso: decisão nas mãos de Alcolumbre
Os outros seis requerimentos dependem do aval de Davi Alcolumbre, que segura:
- Três pedidos de CPI no Senado, apresentados por Eduardo Girão (Novo-CE), Carlos Viana (PSD-MG) e Rogério Carvalho (PT-SE).
- Duas CPMIs no Congresso: uma de Carlos Jordy (PL-RJ), da oposição, e outra das deputadas Heloísa Helena (Rede-RJ) e Fernanda Melchionna (Psol-RS), governistas.
- Um requerimento do deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), ainda em coleta de assinaturas.
Na última sessão do Congresso, Alcolumbre foi cobrado por governistas e oposicionistas, recusou-se a fazer a leitura dos requerimentos e ressaltou que a decisão cabe à Mesa do Congresso.
Guerra de versões e assinaturas
Durante a sessão, Flávio Bolsonaro defendeu a instalação de uma CPMI do Master e desafiou a base governista. O senador passou a apoiar o colegiado após virem a público mensagens em que pediu dinheiro a Daniel Vorcaro para custear um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, além de tê-lo visitado quando ele usava tornozeleira eletrônica. Apesar de afirmar que “assinou todas”, Flávio subscreveu a CPMI de autoria de Carlos Jordy e a CPI no Senado de Carlos Viana, mas não apoiou a CPMI apresentada por Fernanda Melchionna e Heloísa Helena, nem as iniciativas de Rogério Carvalho e Eduardo Girão.
O deputado Lindbergh Farias rebateu o senador, disse que a base governista apoia CPIs sobre o tema e cobrou explicações de Flávio sobre as transações relacionadas ao financiamento do filme.
Cálculo eleitoral e relação com o STF
Cada campo político calibrou sua posição conforme o cenário. No caso da oposição, o movimento ganhou impulso com a divulgação de possíveis conexões entre o Banco Master e autoridades, incluindo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Dias Toffoli confirmou ser sócio de uma empresa que vendeu participação em um resort de luxo no Paraná a um fundo ligado a Vorcaro e, à época, deixou a relatoria do caso Master no STF.
Articulação política e PL da Dosimetria
Uma articulação capitaneada por Alcolumbre levou o Centrão a apoiar a derrubada do veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao chamado PL da Dosimetria — que prevê redução de penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro, incluindo Jair Bolsonaro — em troca de a oposição arrefecer a cobrança pela instalação de uma CPMI do Master.
Do lado governista, a abertura de uma comissão nunca foi prioritária, após o desgaste da CPMI que investigou os descontos indevidos no INSS. A postura mudou após a rejeição, no Senado, do indicado de Lula ao STF, Jorge Messias, e a derrubada do veto ao PL da Dosimetria. Governistas passaram a defender a CPMI como resposta política, movimento reforçado pelas revelações envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
Protagonismo dos autores dos requerimentos
Autor do primeiro pedido de CPMI do Master, o deputado Carlos Jordy afirma que governistas apresentaram uma CPMI apenas por “narrativa” e sustenta que, em caso de determinação judicial, a CPMI a ser instalada seria a dele por ter prioridade temporal. Já Fernanda Melchionna diz que a coleta de assinaturas de sua CPMI começou em novembro de 2025 e que o quórum foi alcançado antes do escândalo envolvendo Flávio e Vorcaro, durante a semana da votação da dosimetria.
Judicialização no Supremo
Diante da recusa de Alcolumbre e da demora na Câmara, quatro parlamentares recorreram ao STF pedindo a leitura e a instalação das comissões. Em 2021, a Corte determinou a abertura da CPI da Covid quando os requisitos constitucionais foram cumpridos.
No atual caso, Rodrigo Rollemberg acionou o Supremo alegando omissão do presidente da Câmara, mas o ministro Cristiano Zanin rejeitou o pedido por falhas processuais e pela ausência de prova de comportamento omissivo ou ilegal. Carlos Jordy ingressou com mandado de segurança em março e voltou à Corte nesta sexta-feira (22), apontando omissão de Alcolumbre e defendendo que a instalação é automática quando os requisitos são atendidos. Do lado governista, Lindbergh Farias e Heloísa Helena recorreram ao STF para que a Corte obrigue a leitura da CPMI; as ações foram distribuídas ao ministro André Mendonça, relator das investigações do Master no Supremo. O senador Eduardo Girão também demandou a instalação da CPI no Senado; o caso está com o ministro Kássio Nunes Marques. Não há prazo para decisão.
O que está em jogo
Com sete iniciativas em compasso de espera e uma disputa aberta por protagonismo, a CPI do Master virou ativo político para ambos os lados: munição de governo e oposição em um ano eleitoral e teste de forças com a cúpula do Congresso. Sem definição sobre a leitura dos requerimentos e com a judicialização em curso no STF, o desfecho dependerá de decisões da Mesa do Congresso ou de eventual intervenção do Supremo, a exemplo do precedente da CPI da Covid. Até lá, a guerra de narrativas tende a se intensificar.