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O governo federal lançou nesta semana o Novo Desenrola Brasil, segunda edição do programa de renegociação de dívidas, com a meta de alcançar até 20 milhões de pessoas e possibilitar acordos que somem até R$ 58 bilhões. A iniciativa chega em um momento de endividamento recorde das famílias — 80,9% em abril, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) — e inadimplência ainda elevada, atingindo 29,6% dos lares. O contraste chama atenção porque ocorre em meio a desemprego no menor nível histórico recente (6,1% no trimestre encerrado em março) e renda média em alta (R$ 3.722), de acordo com o IBGE. Especialistas apontam que o custo de vida pressionado, o crédito caro e a dependência de financiamentos no dia a dia ajudam a explicar por que o alívio na renda não se traduz em folga no orçamento.
Novo Desenrola: alívio imediato e alcance
Lançado na segunda-feira (4), o Novo Desenrola Brasil busca aliviar a pressão financeira de famílias com débitos antigos e recentes, com foco em dívidas contraídas até o fim de janeiro de 2026. O governo estima impacto potencial de até 20 milhões de pessoas e renegociação total de até R$ 58 bilhões. Na primeira edição, em 2023, foram renegociados R$ 53,2 bilhões para cerca de 15 milhões de brasileiros, o que reduziu a inadimplência temporariamente.
Juros, inflação e a herança de um crédito mais fácil
Após a pandemia, os juros básicos chegaram a 2% ao ano em outubro de 2020, estimulando o crédito e o consumo. Com a reabertura da economia e a aceleração da inflação entre 2021 e 2022, o Banco Central promoveu um ciclo agressivo de altas, levando a Selic a 13,75% em agosto de 2022. Houve alívio parcial a partir de meados de 2024 — para cerca de 10,50% ao ano —, mas as incertezas globais em 2024 e 2025 reacenderam pressões de preços. Em junho de 2025, a taxa básica chegou a 15% ao ano, o maior patamar desde 2006. Na prática, o custo do crédito permaneceu elevado, e o endividamento acumulado nos anos anteriores pesou mais no orçamento das famílias. Mesmo com a adoção de um teto, em 2024, que limita o custo do rotativo e do parcelamento da fatura do cartão a até 100% do valor principal, o crédito segue caro em um ambiente de juros altos.
Renda em alta, orçamento apertado
A fotografia do mercado de trabalho mostra melhora: desemprego de 6,1% no trimestre encerrado em março — o menor para o período — e rendimento médio em R$ 3.722 (IBGE). Ainda assim, o comprometimento da renda das famílias com dívidas, especialmente bancárias, alcançou 29,3% em janeiro deste ano, o maior nível da série histórica do Banco Central. “Embora o desemprego tenha caído e a renda tenha crescido, o custo de vida continua maior que anos atrás e há o peso das dívidas. É perfeitamente possível ter um mercado de trabalho aquecido e, ao mesmo tempo, famílias mais endividadas”, afirma Flávio Ataliba, economista e pesquisador do FGV Ibre.
Custo de vida corrói o poder de compra
A pressão do dia a dia aparece tanto na percepção quanto nos índices. Pesquisa Quaest aponta que 71% dos brasileiros dizem comprar menos do que há um ano. No IPCA, do IBGE, os alimentos tiveram forte volatilidade nos últimos anos: o arroz chegou a acumular alta de 74,14% em 12 meses em janeiro de 2021; mais recentemente, as carnes lideraram a inflação entre os itens básicos, com avanço de 21,17% em janeiro de 2025. Além disso, as despesas essenciais — como habitação, transportes, saúde, educação e alimentação — consumiam 41,8% do orçamento familiar em março deste ano, segundo dados do IBGE compilados pela Tendências Consultoria. Com mais renda destinada a itens básicos e dívidas, sobra menos para consumo, lazer, poupança e amortização adicional dos débitos.
Cartão de crédito, parcelamento e o peso do comportamento financeiro
O cartão de crédito é a principal modalidade de endividamento para 84,9% dos consumidores endividados, segundo a CNC, impulsionado pelo uso recorrente e pelo parcelamento como ferramenta de consumo. A economista Olívia Resende, especialista em finanças e economia comportamental, observa que o “viés do presente” — a tendência de priorizar recompensas imediatas — ajuda a manter o gasto mesmo com juros altos. “Mesmo com juros altos, muitas pessoas não ajustam o consumo, não reduzem despesas ou não buscam outras formas de renda. Elas seguem usando crédito porque olham mais para a parcela do que para o custo total da dívida”, afirma. Resende destaca ainda a influência de estímulos externos, como marketing, redes sociais e a facilidade do crédito digital, além da falta de educação financeira. “Quando há entendimento de limites, a necessidade de recorrer ao crédito diminui”, diz.
Normalização do endividamento e riscos de “atalhos”
A popularização de conteúdos nas redes sociais com supostos “atalhos” para reduzir dívidas — como orientações para interromper pagamentos e recorrer à Lei do Superendividamento (Lei 14.181/2021) — preocupa especialistas. Reportagens mostram que essas estratégias não funcionam como cancelamento automático dos débitos. “Quando todo mundo está endividado, isso gera um certo conforto. A pessoa passa a achar que é normal e perde o senso de urgência para resolver o problema”, afirma Resende. Para ela, educação financeira desde cedo, envolvendo escola e famílias, é essencial para atacar o problema de forma estrutural, combinando alívio imediato com mudanças de comportamento no longo prazo.
Por que o endividamento segue alto, mesmo com renda e emprego em alta
- Juros elevados mantêm o crédito caro, encarecendo o serviço da dívida e limitando a capacidade de amortização.
- Parte das famílias carrega débitos desde a pandemia; com mais compromissos mensais, qualquer ganho adicional é absorvido por gastos básicos e parcelas.
- Itens essenciais do orçamento pressionam a renda disponível, reduzindo o espaço para consumo e poupança.
- O uso recorrente de crédito, especialmente cartão e parcelamentos, soma-se a decisões financeiras influenciadas por impulso e desinformação.
O que observar
A nova rodada do Desenrola pode oferecer fôlego a quem busca reorganizar as contas, especialmente em combinação com a orientação financeira. A trajetória da inflação e dos juros seguirá determinante para o custo do crédito e para a capacidade de alívio mais duradouro. Com o emprego forte, a redução consistente do endividamento tende a depender de queda do custo financeiro, recomposição do poder de compra e medidas de educação financeira que desestimulem a “normalização” da dívida no cotidiano.
Com colaboração de Nayara Felizardo*